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Hoje acordei com uma vontade indizível de gritar um palavrão... um imenso, do tamanho da minha idignação! Um palavrão onde caiba todo ódio do mundo, daqueles que a gente murmura quando algo dá errado... quando o chão pula no dedinho pé ou a gaveta nos engole a mão... Um baita palavrão, o mais pesado, o mais cretino da 'última flor do Lácio' essa flor inculta e bela! Queria um impropério que expressasse de forma definitiva a minha revolta... só pode ser um palavrão, um daqueles que a gente manda pro técnico do futebol ou pra telefonista que nos obriga a ouvir Pour Elise repetidas vezes... aliás Beethoven devia estar muito entediado... Preciso urgentemente de um palavrão e não tem um nos Classificados ou nas páginas amarelas... francamente! Um palavrão charmoso, inusitado, um que me alivie esse cansaço... Ando mesmo cansada, realmente cansada... da política mesquinha nos gabinetes luxuosamente mobiliados, cansada do Fantástico misturando assassinatos, corrupção e amenidades burguesas... exausta da hipocrisia da cultura pop e da falta de politização das lutas sociais... Da Veja, do PIG, do Jô e da novela, dos comentarios vazios do Arnaldo Jabour, e até do Caetano (devia limitar-se ao que faz bem: cantar)... mas esta é outra história. Eu preciso de um palavrão, um protesto épico, legendário. Quando pensei que tudo já estava triste de fazer dó, me aparecem palestrantes entojados, cujos Lattes impecáveis e, diga-se, invejáveis, não os impedem de zombar da plateia... escuta só: em plena sexta-feira, sala cheia de pessoas ávidas por conhecimento (ou por assinar a chamada e cair fora), todos pós-graduandos, mestres e doutores experimentados nas agruras da academia, a palestrante, depois de divagar interminavelmente, se levanta e escreve no quadro: FOUCAULT!!! Aí eu amaldiçoei meu dia de vez... senti que deveria rasgar meu currículo e assassinar meu trabalho! Meus colegas e eu nos vingamos como se deve, "civilizadamente", academicamente. Fiquei estranhamente aborrecida, pouco me adiantava usar a ironia civilizada, queria mesmo era uma discussão escandalosa, que me desse alguma sensação de alívio... algum sinal de honestidade. Não bastasse minha raiva por ter que participar dessas cerimônias sociais em que é obrigatório a reverência, a condescendência, a boa vontade... tive que distribuir "boas noites"... ah crueldade sem fim! E assim, estrangulada pela boa educação, coloquei à contragosto a máscara blasè e ligeiramente risonha, voltei pra casa sem o meu palavrão. Coloquei os fones de ouvido, tentei sem sucesso aquelas técnicas de meditação... Além de tudo, meus rins doem...tenho pedras. Ah como eu queria um palavrão!
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| O grito - Edvard Munch |
PS: Aos indignados recomendo a leitura do livro "Indignai-vos", do grande herói da Resistência francesa Stèphane Hessel... desejando que a indignação ultrapasse esse meu amuo, essa malcriação... que nós a reclamemos como um direito, que a usemos para abandonar a indiferença...